A solidariedade romântica e pragmática de Richard Rorty

Richard Rorty In: pt.wikipedia.org

Richard Rorty (1931-2007), talvez um dos mais influentes filósofos contemporâneos de língua inglesa, foi um teorético-político pragmático, anticlerical e esquerdista. O homem que já não está entre nós, e que não acreditava na vida para além da morte, valorizava o esforço na edificação de um mundo melhor em detrimento de energias gastas numa vida conduzida pela crença na eternidade. A religião, para ele, deveria cingir-se a um patamar utilitarista, ou seja, útil se a alguém acrescenta felicidade, e pouco mais. De acordo com o filósofo pragmático, a existência de Deus é uma questão desnecessária para a cultura político-social, e a moral não deveria ser outra que não aquela construída sobre consensos (Habermas). É também dentro desse contexto de exclusão que a compaixão religiosa, a solidariedade, deveria ser isolada de qualquer doutrina, que para Rorty não representa senão o interesse dos grupos religiosos, centrando-se antes numa compaixão de sentimentos, despertados diante das necessidades e tragédias alheias.

Favorável à privatização da fé, onde a liberdade de crer ou não deve pertencer à consciência de cada um, e contrário às instituições organizadas, Igrejas, ou religiões, que Rorty acusa de interesses, oposição à ciência, proselitismo, divisão social, também a solidariedade deveria pertencer, segundo ele, a um âmbito que não fizesse parte dessas instituições. À guisa de sugestão, o autor centra-se noutras verdades sociais, emanadas de Marx, por exemplo. A própria filosofia tem, para o autor, o seu culminar no idealismo e no materialismo. Como todo o filósofo devotado ele valoriza e segue o seu guru (o revolucionário socialista alemão) e vai beber de determinada espiritualidade, no caso de Rorty, o Romantismo, entretanto, num conúbio com o pragmatismo. É dentro deste contexto que o teorético-político pensa a solidariedade. Embora reconheça que se há algo a reconhecer de alguns padres, os melhores, seria a sua caridade e desprendimento, Rorty também os crítica por fundarem o amor ao próximo a partir de um fanatismo paradoxal. Assim, ele propugna uma solidariedade que não se funde em Deus ou em qualquer interesse religioso, que não esteja por detrás da história ou das instituições, mas na entreajuda, na solidariedade humana, como imperativo moral despoletada ou provocada pela compaixão.

Ao reconhecer pressupostos filosóficos e teológicos que fundam a ideia e a prática da solidariedade, Rorty quer aproveitar a progressiva desvinculação a estes princípios para introduzir novos, transformando-a numa obrigação moral, racional, baseada na compaixão pelo homem, seja ele quem for. Pragmática e romântica, embora o autor chegue a caracterizá-la como um “panteísmo romântico” que nos leva a dar conta de fazermos parte de um todo, uma realidade mais ampla.[1] O abandono das narrativas filosóficas rígidas e das postulações religiosas deveria ao mesmo tempo levar o homem a consciencializar-se da necessária participação democrática, da grande “aventura humana” na qual ele está inserido, e torná-lo participe na edificação da “utopia futura”.[2] Consequentemente, diante do sofrimento, o homem deveria despertar para a solidariedade, não pela dignidade humana nem por este ser seu semelhante, pressupostos filosóficos e teológicos que, segundo Rorty devemos evitar, mas por uma espécie de sentimentalismo capaz de transformar os indiferentes e os maus em pessoas boas e compassivas, até mesmo ativas, ao ver as tragédias na televisão ou a partir de qualquer literatura ou experiência do sofrimento alheio. Histórias comoventes provocadoras de boas e solidárias ações.

Ora, este tipo de solidariedade, dos sentimentos, ou pior, do sentimentalismo, na prática, tem-se revelado um verdadeiro desastre. Em primeiro por tratar-se, e não podia deixar de ser num autor marxista, de uma utopia. E enquanto tal, uma ideologia de tendências totalitaristas que empurra os povos condicionados, ou as massas, a uma alienação. Ao reduzir-se a solidariedade a uma filantropia submissa a qualquer cor política, ONGs ou grupos, entrega-se uma das mais nobres virtudes humanas a lógicas de visibilidade e lucro, aproveitadores políticos e manipuladores dos mais variados sentimentos, que fazem uso dos média para despoletar revoltas e conduzir a opinião pública. Em segundo, por levar a ações, por vezes musculadas, mas de carácter transitório, sem perenidade. Lutiger justifica que o uso das emoções para despertar a generosidade do público redunda num entusiamo periclitante e limitado, que logo cede lugar à indiferença.[3] Questões relativas à fome, à tragédia, a doenças, a cataclismos, à discriminação, têm a sua quota de audiência no time sharing televisivo, despoletam sentimentos que vão da comiseração ou mesmo da fúria à revolta, juntam manifestações e ações de solidariedade, para depressa tudo cair no vazio da frustração e do esquecimento. Aquela dor e sofrimento têm importância na medida em que eles surgem na imprensa, com maior ou menor intensidade e visibilidade, escondendo tantas outras tragédias humanas, inclusive mais dramáticas, esquecidas porque a solidariedade passou a estar fundada na publicidade.

Talvez o sentimentalismo solidário romântico e panteísta de Rorty seja aquele que está na moda. Mas a caridade cristã continuará ao longo da história a produzir homens e mulheres abnegados e apaixonados, com amor a Deus e ao próximo, seja ele quem for, distantes dos holofotes da imprensa, mas nos terrenos mais complicados e severos, ali, onde a presença e a dignidade humana exigem. Não são levados por filosofias pós-modernas, nem por utopias, não desistem quando a paixão esmorece, entregam a sua vida ao próximo e a sua alma a Deus, e as instituições permanecem, há centenas de anos, permanecerão até ao fim do mundo, porque sustentadas naquele que é Eterno. A filosofia de Rorty passará, como tantas outras, a caridade cristã, essa, permanecerá.

Dr. Manuel Victorino

Referências Bibliográficas

CONTEMPORARY PHILOSOPHY IN FOCUS: Richard Rorty. Ed. GUIGNON, Charles; HILEY, David R. New York: Cambridge University Press, 2003.

RORTY, R. Contingency, irony, and solidarity. New York: Cambridge University Press, 1995.

RORTY, R. Truth and progress. New York: Cambridge University Press, 1998.

RORTY, R. Philosophy and Social Hope. London: Penguin Books, 1999.

RORTY & VATTIMO, G. Il futuro della religione. Milano: Garzanti, 2005


[1] RORTY & VATTIMO, G. Il futuro della religione. Milano: Garzanti, 2005, p. 44.

[2] Cf. RORTY, R. Philosophy and Social Hope. London: Penguin Books, 1999, p. 238-239.

[3] Cf. LUSTIGER, Jean-Marie. Como Deus abre a porta da Fé. Gráfica de Coimbra, 2007.

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