A globalização da revolução cultural ocidental

Uma obra quase desconhecida, mas de grande valor. Chegou-me às mãos por intermédio de um amigo que a tinha trazido de uma conferência a que tinha assistido durante uma viagem. Talvez discernisse a necessidade de levar o conteúdo da obra aos meus alunos e ao público em geral. Um estudo frio e imparcial sobre a globalização e o novo tipo de colonialismo ideológico promovido por instâncias internacionais. A obra não se baseia em polémicas e afirmações vãs ou teorias da conspiração, mas nos documentos públicos produzidos por essas entidades e pelo trabalho que fazem no terreno. Chegou-me às mãos a edição francesa: La mondialisation de la révolution culturelle occidentale: Concepts-clefs, mecanismes opérationnels (A globalização da revolução cultural ocidental: conceitos-chave, mecanismos operacionais), título do livro publicado pelo Institute for Intercultural Dialogue Dynamics a partir dos estudos, escritos e conferências realizadas pela sua diretora, a jornalista e professora da Universidade Urbaniana Marguerite A. Peeters. A tradução portuguesa foi publicada em 2005 pela Editora Principia. A obra oferece uma preciosa sinopse:

Uma ética nova, que se expressa através de uma nova linguagem, propagou-se por todo o mundo após o fim da Guerra Fria. Laicista nos seus aspetos radicais, esta ética é fruto das revoluções feminista, sexual e cultural ocidental e do longo caminho percorrido pelo Ocidente em direção ao pós-modernismo.

A governança global confere a esta desconstrução da antropologia judaico-cristã, na origem da disfunção sociopolítica atual, um caráter globalmente normativo.

Este manual visa fornecer aos educadores as informações necessárias para alcançar, à luz da lei inscrita por Deus no coração de todos os homens, o discernimento dos conceitos-chave e dos mecanismos operacionais da globalização da revolução cultural ocidental. Visa também encorajar as pessoas de boa vontade, enraizadas na sua própria cultura, a serem fiéis à sua identidade, permanecendo quem são, e a oferecerem ao mundo atual um contributo que lhes é específico e esperado pelos que desejam regressar à realidade, à verdade e ao amor.

Segundo a autora, uma revolução cultural ocidental gerou-se a partir de alguns “mitos” filosófica e socialmente construídos e que começam hoje a ganhar certo desgaste: “o mito da sobrepopulação forjado por Malthus que alimentou o movimento de controle da população e as políticas demográficas ocidentais”; “o mito da libertação da mulher e da opressão masculina” que partiu de uma legítima luta contra a marginalização social e jurídica da mulher entretanto degenerada em abusos e histerias feministas; “o mito do amor livre” com a trágica difusão de doenças sexualmente transmissíveis e a consecutiva desconstrução da célula base da sociedade, a família; “o mito do progresso” e da “absolutização das certezas cientificas”, que trouxe a confiança total nos dogmas científicos e a desconfiança das verdades religiosas, assim como o consumismo desenfreado. A partir destes mitos, dos seus idealizadores e propagandistas, Marguerite A. Peeters identifica a ONU e os documentos por ela produzidos a partir da década de 90 como a grande responsável pela tentativa de globalizar essa revolução cultural ocidental. A própria linguagem da Organização revela a tentativa de estabelecer novos paradigmas e abandonar outros pré-existentes, tais como:

Hierarquia > Igualdade;

Família tradicional > Família em todas as suas formas;

Esposo ou esposa > Parceiro;

Religião > Espiritualidade;

Instituições > Indivíduos

Valores Universais > Mundiais, globais

Tradição > Liberdade cultural

Nações e povos > Multiculturalismo

Dogma e verdade > Livre escolha e tolerância

Soberania nacional > Governo Mundial

Entretanto, nada de grandioso se faz de repente, e a autora da obra sabe disso. Por isso, ela faz uma breve narração da história filosófica, ética e política e os seus autores, que deram sustento às presentes conjunturas e conjeturas. Da revolução francesa com o seu racionalismo e o abandono das tradicionais instituições, à civilização não repressiva, preconizada por Marcuse, do desconstrucionismo de Derrida ao laicismo radical pós-moderno de Richard Rorty, de Freud e a sua líbido aos mentores do amor livre, a autora vai discernindo em muitos outros pensadores e influenciadores dos nossos dias o cozinhar de um caldo cultural que acaba por redundar num ocidente pós moderno que se torna ele mesmo antiocidental e que se volta para uma espécie de tribalismo há muito superado e hoje exaltado. O Ocidente renuncia-se e aprendeu a odiar-se a ele mesmo. Tudo nele deve ser destruído para dar lugar a essa nova ordem de utopias. O primado da escolha radical e livre dada aos indivíduos, rejeita toda uma herança para se reconstruir. Não a partir de uma escolha totalmente livre, mas condicionada pelos engenheiros sociais que querem fazer crer que somos livres, mas para tal, temos de aderir ao pensamento único, imposto, global… Um regime ditatorial ou totalitarista disfarçado.

Para a desconstrução dos velhos paradigmas, faz-se uso da Internet e todos os meios possíveis, poderosamente financiados (panfletos, cinema, cursos, médias…) massificando-se assim a nova linguagem. Surgem igualmente no terreno as ONGs (ecológicas, feministas, pacifistas, militantes dos direitos…), que supervisionam e garantem que as novas normas são colocadas em prática, através dessa democracia participativa e não mais representativa, que financia e coloca num pedestal grupos minoritários que passam a ter grande importância e poder na sociedade. Estas vozes de protesto sobrepõem-se à voz da maioria nas democracias, e têm grande visibilidade nos meios de comunicação. A ligação moderna dos governos com estas instituições, que ignoram e espezinham as maiorias, é responsável, segunda a autora, por novas formas de ditadura, em que as minorias passam a impor aos demais as suas ideologias. Passamos a ser livres quando pensamos como eles, não quando temos uma personalidade própria e guardamos valores universais que nos foram transmitidos. Claro, para isso, é preciso tirar a responsabilidade de educar aos pais para entregá-la aos poderes institucionais, configurados e cobrados pelos agentes dos novos paradigmas.

A UNESCO exerce hoje uma influência direta sobre os ministérios da educação, e supervisiona a educação que é oferecida por estes, garantindo que mais do que conhecimentos académicos objetivos, a comunidade discente é educada para viver segundo os novos valores. E isto engloba a ideologia do género, a reeducação sexual (normalizando todo o tipo de relações, de construção da identidade e do género, o aborto, o amor livre), a abolição de todas as hierarquias, tornando o aluno um igual ao professor, que se torna apenas um facilitador, sem autoridade,  ou por vezes limitado até diante dos “direitos” das crianças. Para estas ou para os adultos, segundo Marguerite A. Peeters, a engenharia social tornou-se uma arte e uma ciência, através das suas técnicas de “propaganda”, manipulação” e “lavagem de cérebros”. Tudo isto é realizado de modo que os indivíduos não se apercebam que aquilo lhes é imposto por uma agenda exterior. A agenda não é soft, mas persegue objetivos radicais tais como: “crença zero, ética laicista ou neopagã, pacifismo utópico, libertinagem sexual, desconstrução do ocidente”. Slogans e ideias lançadas pelos engenheiros sociais são tiranicamente globalizadas dentro de um contexto que exclui os demais ou a diferença de opinião, tais como o direito de escolha, direito sobre o próprio corpo, a celebração da diversidade, a mudança dos tempos e o abandono das tradições, os direitos humanos, a igualdade, a vida escolhida e programada contra a não planeada, a proibição de proibir e a exclusão de toda e qualquer autoridade… A partir de uma cultura de consensos, e nunca de confronto, os “facilitadores” ou “sensibilizadores” das minorias vão convencendo e formatando as maiorias, que não são verdadeiramente consultadas, nem para tal conta a sua opinião.

Segundo a autora, os guardiões das grandes verdades teriam de ser postos em causa para libertar as mentes para o pensamento único, e para isso seria necessário instruir os povos e as nações a uma nova espiritualidade, livre de dogmas, que olha para a religião como quem escolhe o que quer conforme a conveniência, para assim não levantar problemas diretos com as instituições religiosas e ao mesmo tempo criar consciências aparentemente livres. O uso generalizado de contracetivos pelos crentes e a livre escolha ética e doutrinária é um exemplo dessa nova mentalidade que renuncia à moral e aos dogmas, mas não à espiritualidade, e que levou os crentes a separarem a doutrina da prática. Entretanto, uma nova ética seria incorporada às religiões, que guardariam uma moral soft, um discurso democrático, onde o julgamento é substituído pela compaixão. Os líderes religiosos começaram então a ser pressionados a configurar-se aos novos paradigmas e são “crucificados” pela opinião publica, liderada pelos média, quando se opõem a eles. Não foi a pressão mediática e de lobbies a um Papa que se opôs a estes novos ventos, que acabou por levar Bento XVI à sua renúncia? Eis a força com que se quer impor a nova ética mundial. O conúbio entre as verdades da fé e a agenda globalizadora daria mesmo lugar à nouvelle théologie, sobretudo no campo da moral, acomodada agora às novidades que incorporam os novos paradigmas, adaptados à linguagem teológica, para a qual seria necessário reeducar dentro dos seminários e universidades confessionais. Sem uma oposição direta às Igrejas, sob a política do diálogo e dos consensos, as ideias onusianas seriam absorvidas pelos religiosos influenciadores de opinião que dos próprios púlpitos pregam a nova ética do pensamento único sem se darem conta do seu conteúdo amoral e laicista. A autora, conhecedora desta realidade nas Universidades Católicas, dedica um bem elaborado capítulo a toda esta questão.

Esta nova mentalidade que grassou no Ocidente tem por detrás agentes que a querem globalizar, impor ao demais, e ao mesmo tempo que aponta para os erros do colonialismo, quer agora colonizar ideologicamente povos, nações, culturas e tradições em nome desta nova doutrina que se julga superior e quer calcar a seus pés todas as demais, apostando sobretudo nos países em vias de desenvolvimento. Ponto por ponto, Marguerite A. Peeters revela que não elaborou um livro de conjeturas cabalísticas e teorias da conspiração, mas cita os documentos e ações promovidas pela ONU, pela UNESCO, pela UNICEF, entre outras, que querem impingir a todos os povos e nações a nova mentalidade e o pensamento único que tanto desgaste já começa a ter pelo Ocidente, sobretudo na Europa. O problema demográfico, os populismos, a desconstrução das tradições e da família monogâmica e aberta à vida como célula base da sociedade está a levar uma crise sem precedentes às populações europeias, que vão perdendo a sua identidade, renunciando às suas raízes, envelhecendo a olhos vistos, e a implodir socialmente, virando-se com violência contra a sua própria história e cultura. Será este o modelo a exportar? A autora convida por isso mesmo a voltarmos ao essencial, a renunciarmos com liberdade ao pensamento único, e a manter a nossa identidade sociocultural. Uma obra a conhecer e… a viver!

Dr. Manuel Victorino

Resenha do livro PEETERS, Marguerite A. La mondialisation de la révolution culturelle occidentale : Concepts-clefs, mécanismes opérationnels. Institute for Intercultural Dialogue Dynamics, 2011.

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