A escola livre e plural deve distanciar-se de ideologias e partidos

Certa vez fui abordado por um casal proveniente de um país que tinha guinado ideologicamente para certo extremismo político, e que por causa disso tinha-se refugiado em Portugal. Tratava-se de uma opção não política, pois a eles pouco interessava o regime que estivesse à frente da sua nação, se vivessem ainda que em parcial democracia e pudessem continuar com o suor do seu trabalho a levar o pão de cada dia para casa. Era uma família extremamente simples. Entretanto, a grande preocupação deles, como pais, era a doutrinação ideológica que grassava nas escolas e que prejudicava o ensino dos educandos. Contavam-me eles que um dos filhos chegava a casa a perguntar quem era Karl Marx de quem o professor diariamente falava. Um pormenor: o filho estava na primária… Vieram então para Portugal na esperança que os filhos pudessem ser educados livremente, para as escolhas futuras também serem livres, e não resultado de condicionamentos políticos e sociais dos locais onde deveriam aprender imparcialmente a história, matemática, português, geografia… As habituais disciplinas curriculares para um dia poderem candidatar-se ao ensino superior e enfrentarem o exigente mundo do trabalho. A liberdade para decidir não combina com o condicionamento ideológico ao aprender.

Entretanto, o que se nota nos dias de hoje, também em Portugal, é a introdução de certa agenda impulsionada por organizações internacionais.[1] Que as escolas não são imparciais, por exemplo, em matérias que envolvem a religião, sobretudo a católica, com as habituais críticas anticlericais, resquício que a República há muito deveria ter superado, isso a comissão para a liberdade religiosa, liderada por Esther Mucznick, uma judia, e por isso mesmo insuspeita da sua análise, já havia concluído. Os manuais estão eivados de erros e críticas perniciosas e tendenciosas.[2] Mas que o ensino plural e livre, laico, se aproxime de ideologias, radicais, pouco ou nada científicas, e queira substituir os pais na educação, parece uma situação melindrosa que exige vigilância das famílias. São numerosas as instituições que têm provado haver certa doutrinação das crianças a partir dos manuais e dos programas escolares. Um grupo parlamentar levou há pouco tempo ao Constitucional um pedido de averiguação relativamente aos conteúdos apresentados. Lá fora, em alguns países da América do Sul, desgastados por novas formas de reeducação baseados em ideologias, começam hoje a exigir escolas livres de partidos políticos.

Portugal começou a viver temas fraturantes que estão a dividir o país. Temas como a vida, a educação, a família, a imigração, a ecologia (por vezes desequilibrada ou instrumentalizada), o feminismo, o racismo, o amor livre… polémicas alimentadas por ambas as faces ideológicas de uma mesma moeda populista. E que vai extremando posições. É o caso ainda recente, com petições e manifestos de ambos os lados, em temas como a eutanásia, ou a disciplina de cidadania, que pelos vistos tem no seu programa temas que não interessam a certos pais, e até mesmo a certos filhos. Um desses temas conduz à erotização das crianças, algo delicado e perigoso, um tema que não deve ser imposto, obrigatório, uma vez que a estrutura mental de cada infante não é igual, e deve pertencer aos pais discernir e ajudar os filhos nessas questões, se necessário recorrendo à ajuda de profissionais. Nas ciências naturais quase todos nós aprendemos algo sobre o aparelho reprodutivo e vimos até os órgãos sexuais dissecados nos nossos livros escolares. Essa geração de progenitores, que tem hoje entre 25 a 45 anos, nunca precisou da disciplina de cidadania. E não foi pela falta da inclusão de matérias relativas ao amor livre e à ideologia de género que se tornaram umas amebas em matéria sexual ou discriminatórios em matéria de diversidade. Há coisas que se aprendem na escola da vida. Essa geração de pais que não precisaram da disciplina de cidadania, é a mesma que hoje recusa que essas matérias sejam dadas aos filhos. Não são os do tempo da velha senhora, hoje avós ou bisavós. Nessa matéria, não podem simplificar e simplesmente apelidar de fascistas os pais que não querem que essas matérias sejam dadas aos filhos.

O problema não é a educação sexual, nem o funcionamento dos órgãos reprodutores como se faz há tantos anos nas matérias de ciências da natureza, ou ciências naturais, mas ensinar que esses órgãos não nos definem e que podemos ser o contrário daquilo que está na nossa natureza. Construímo-nos, não de acordo com a educação e a cultura, as tradições e os costumes, a natureza e a realidade, rompendo-se com tudo isso em nome da liberdade individual e do subjetivismo. Em alguns países dão até uma lista com mais de 10 configurações daquilo que as crianças se podem tornar, que vão do assexuado ao pansexual, entre tantas hipóteses e terminologias que se deixam os adultos confusos, que caos não provocará na cabeça dos mais novos. O problema de fundo não é a educação sexual, mas a revolução sexual promovida nas escolas, por vezes em idades demasiado tenras e inocentes, numa erotização das crianças que em muitos casos tem-se tornado perigosa, sempre promovida por certas cores políticas de cunho extremista. Temas que são caros a certas bandeiras e discursos políticos, e que se não fazem parte da Natureza, da Ciência ou da Biologia, constituem uma ideologia, e essa deveria estar muito distante dos centros educativos. A mesma ideologia que quer permitir um jovem de 16 anos mudar de sexo sem o consentimento dos pais, ou o acompanhamento de profissionais, quando ainda não lhe é sequer permitido beber uma simples cerveja…

Dr. Manuel Victorino


[1] Quanto a isto, ver o artigo neste site: https://filosofiamoralepolitica.com/2020/09/03/a-globalizacao-da-revolucao-cultural-ocidental/

[2] Ver a conclusão do estudo em: http://www.cilisboa.org/documents/Religiao_nos_manuais_escolares.pdf

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