As Universidades e os “idiotas úteis”

Que as Universidades sempre foram polos de proselitismo para as esquerdas mais radicais, ninguém nega. Umas mais do que outras, é certo. Eu não escrevo o que ouvi ou conjeturo baseado no que se diz, mas o que eu vi e vivi. Em tempos em que o Bloco de Esquerda não tinha um único deputado na Assembleia, ele começava a formar os seus prosélitos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Um polo educacional já afamado pela sua adesão ao socialismo, e onde certa esquerda mais radical ia à pesca. Eram colocados membros estratégicos nos debates e conferências, por vezes para boicotar ou para divulgar os seus temas fraturantes, cartazes eram afixados por todos os lados, alunos eram convencidos a militar. Não é por acaso que professores universitários dessa estirpe levaram alguns dos seus melhores alunos para o partido, e a composição parlamentar desse grupo é prova disso. Na época, não escondiam que eram maoistas, depois a palavra foi retirada para não ferir suscetibilidades ao comum eleitor. Na doutrinação, draconianos, pois sabem que ideais radicais arrastam os jovens. Na militância pública e nos média, moderados, para convencerem o eleitorado de centro-esquerda. Sabem mostrar as garras e escondê-las quando necessário. Não há dúvida que se especializaram nisso, e têm facilitadores/doutrinadores muito hábeis. Fizeram um grande trabalho, e por isso cresceram tanto. Doutrinas pespegadas a uma juventude desejosa de heroísmo e ideais, incentivada a defender esses temas encapotados de tolerância e humanidade, idades que querem aderir a grandes causas, mas ainda sem experiência de vida, extremamente ingénuas, e sem dúvida, vulneráveis.

Explicou-me certa vez, de forma coerente e sapiente, um daqueles dinossauros com anos de vida académica, ser comum e subsistente a doutrinação ideológica nas Universidades. Ventos de utopia sopram sobre aqueles que aspiram a um mundo diferente, atingem uma idade tendente a revoltas e à rejeição de toda e qualquer autoridade. Molda os que têm menos personalidade em massas amorfas conduzidas por hábeis fazedores de opinião, transformando-os, na expressão de Gramsci – que lançou as bases para este tipo de proselitismo –, em “idiotas úteis”. Mais tarde, com a entrada no mundo do trabalho, a constituição de família, as pontas vão-se moderando. O centro começa a ganhar importância na vida simples de quem se contenta com pouco e vive o dia a dia a pagar as contas com aspirações de juntar dinheiro para as férias, e, talvez, um carro novo. Pelo meio, os filhos começam a gerar gastos. A conta bancária cresce pouco. A pessoa deixa de lado as aventuras, e só deseja estabilidade, transpondo-a para o mundo político e financeiro. Talvez aquele que outrora foi um jovem extremista, agora adulto moderado, seja futuramente um provecto conservador. Preocupa-o a moralidade do mundo, o caminho seguido por filhos e netos, e a eternidade começa a aproximar-se… Deriva-se da idade do proibido proibir para a meia idade que busca moderação para melhor viver, e chega-se a uma senectude que opta pela direita cristã, talvez a melhor para de consciência tranquila morrer. Que deriva ideológica…

Não foi há muito tempo que o comentador José Miguel Júdice perguntou em direto, deixando o apresentador do telejornal algo embasbacado, se os jovens jornalistas eram todos do Bloco de Esquerda.[1] De fato, o protagonismo dado a esse partido é desproporcional relativamente aos demais, com conferências de imprensa diárias e diretos, onde quer que estejam os seus partidários. Depois do Presidente da Républica, e talvez mesmo acima do Primeiro Ministro, lá estão eles, ora numa escola, ora numa manifestação, ora numa conferência… sempre com devotados jornalistas para os diretos. Repetem sempre a mesma cassete, gira o lado e toca o mesmo, sem grandes novidades nem interesse. Mas lá estão os microfones. Ora, não se vê isso em nenhum outro partido. E isso é fruto da formação académica que os jornalistas no ativo receberam, direta ou indiretamente. Infelizmente, não são imparciais. Logo, acusados de Marxismo Cultural. Sem dúvida, precisam amadurecer. Têm desejos de matérias alinhadas com os grandes temas da revolução ocidental, mas ao contrário daquilo que desejam alcançar, e à semelhança do açúcar ou do sal em demasia no copo que chega ao ponto da saturação, a voz que concedem a populismos e extremismos de esquerda gera reações, pois ferem conservadores e moderados que começam a optar por certa direita mais contundente, como forma de reação e oposição. E o país vai-se polarizando. E encostando a extremos. Não foi isso que aconteceu ainda recentemente no Brasil? O PT cristalizou. Os populismos subiram de tom. O país deu uma forte guinada para o outro lado…

Que sirva de lição! Esta curiosa deriva ideológica de tantos homens e mulheres. Dos “idiotas úteis” gerados pelas universidades a uma direita radical, a história dos homens pode transformar-se na história das nações.

Dr. Manuel Victorino


[1]In: http://www.tvi24.iol.pt/videos/opiniao/estado-nao-tem-qualidade-no-exercicio-das-suas-funcoes/5b5638020cf282952f033fdd

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