Adulterar a história conforme a ideologia

A História é composta de nobres e valorosos atos, mas também de tremendas vergonhas. Assim é a humanidade, à semelhança do Homem, com os seus altos e baixos, momentos virtuosos e pecaminosos. Se o objetivo é edificar quem nos ouve, a narrativa será relativa aos melhores momentos. Silenciamos muitas vezes o que nos envergonha, e gabamo-nos do melhor que nós temos. Faz parte da nossa natureza. Somos lerdos ou negligentes em reconhecer os nossos próprios erros e ágeis em condenar os demais. Algo difícil, porque exige, antes de mais, humildade. Que segundo Tomás de Aquino, é a consideração daquilo que as coisas e as pessoas são, sem mais nem menos. Isto é, sem acrescentar, nem tirar nada daquilo que lhes é próprio. Daí a clássica analogia da humildade com a verdade. A mesma verdade que se exige ao jornalista, ao historiador, ao filósofo, ao sociólogo… uma análise dos fatos e acontecimentos neutra, imparcial, que obriga a deixar de lado a arrogância de ideologias totalitárias e narrativas unilaterais, condicionadas por cores políticas, doutrinas dogmatizadas e líderes intocáveis, tantas vezes presentes nos estudos, nos artigos e nas crónicas, nas obras artísticas e literárias. Os erros do presente e do passado exigem educação, equilíbrio e bom senso, acima de tudo a tal humildade-veracidade, a fim de transformar o mau ato não em escândalo per si, mas na justa advertência, possível correção, e exemplo a não repetir. Deve acompanhar tudo isto um grande cuidado e vigilância que possibilite excluir toda e qualquer doutrina obcecada em diabolizar o passado propugnando novas e utópicas narrativas, usando uma lupa que distorce e julga tudo com critérios emanados por ideólogos a quem tanto apraz reescrever a História para impor a sua visão única política e social.

A escravidão é um exemplo disso. Não foi exclusiva a este ou aquele povo. Infelizmente, foi um fenómeno global que persistiu ao longo de muitas centenas de anos da nossa História e do qual nos devemos envergonhar. O povo judeu foi escravizado pelos egípcios e pelos babilónios, mas eles também possuíram escravos e a narrativa bíblica é pródiga em narrá-lo. Os Romanos escravizaram e humilharam os cartagineses, e até aos letrados que mandavam vir da Grécia para ensinar os seus filhos atribuíam o estatuto de servi docti, escravos doutores. Os Árabes subjugaram os cristãos e vice-versa. A História da África, de ponta a ponta, está recheada de formas desumanas de escravidão impostas aos povos e às tribos que disputavam territórios e soberania. Os colonizadores levavam consigo aqueles que eram vendidos junto às costas da África pelos próprios Africanos. E os que sobreviviam às épicas e longas viagens, viam muitas vezes condições de vida até mais favoráveis do que aquelas que possuíam entre as tribos que se não os comiam, matavam ou humilhavam. Aos poucos, a humanidade foi superando esta sua trágica página escrita com muito sangue. Hoje, o mundo conta com novas formas de escravidão, mais subtis, recônditas, mas que deve superar. Tal como aquela arrogância de alguém que do alto dos seus ténis feitos por calejadas mãos infantis do terceiro mundo, na sua roupa de marca realizada por industrias sujas e cheias de mulheres e crianças exploradas, com o seu telemóvel último modelo fruto do capitalismo do trabalho extenuante e mal pago contra o qual ele vocifera, frequentador de lupanários onde mulheres vivem prisioneiras de chulos, e com as ideias condicionadas por ideologias que escravizam as mentes, agita um qualquer cartaz com desejo de libertação, crítica ao consumismo e condenação da colonização…Sim, a escravidão ainda existe! Não, ela não é fruto desta ou daquela cultura ou história particular ocidental, mas trata-se de um fenómeno histórico complexo e global. Sim, ela é aproveitada por muitas narrativas, em si totalitaristas e escravizadoras de mentes, ideologias que vêm nela a opressão dos senhores, a luta de classes, a libertação dos oprimidos, mas que são elas próprias escravizantes a seu modo. Elas escravizam a escravidão em favor da sua própria narrativa.

A escravidão foi um pequeno exemplo, de como uma matéria histórica ampla e complexa, não totalmente superada, é transformada e reescrita por ideologias que fazem dela cavalo de batalha para conquistar os seus regimes utópicos. Um parágrafo é pobre para tratar de um tema tão amplo e vasto, mas o escopo deste artigo é outro, relativo à análise histórica parcial e adulterada como fator de proselitismo para a revolução social, massas amorfas conduzidas por fazedores de opinião, por uma educação condicionada, por uma imprensa parcial, por historiadores que reescrevem a história. No fundo, pela falta de humildade-veracidade, que não considera as coisas como elas são, mas a seu belo prazer. Não podemos transformar os heróis em vilões, nem elevar os tiranos ao altar, é preciso equilíbrio e bom senso. Derrubar estátuas não é a solução… Por exemplo, o Marquês de Pombal foi quem foi, com o seu conjunto de defeitos e virtudes. Pouco depois da sua morte, Eckhart narra que as suas esfinges foram derrubadas, pois ainda estava presente a memória da sua tirania e ainda se afigurava ao povo a quantidade de sangue derramado em praça pública na perseguição aos jesuítas e aos nobres. Hoje, a maior e mais central estátua de Lisboa, edificada sobre uma estrutura maçónica, é a de Sebastião Carvalho e Melo. O derrube das estátuas não apagou a história nem a figura do famoso Marquês. Permitiu-se, isso sim, reescrever a sua história, e hoje até se atribui a ele a reconstrução de Lisboa, quando o tirano chegou a ser contrário aos planos apresentados por Manuel da Maia, preferindo uma deslocação e reconstrução do centro da cidade noutro local ou um restauro mais conservador da mesma. Nem a reescrita laicista da história permite ensinar que a grande edificadora e impulsionadora de uma renovada cidade foi Maria Pia, a quem tão somente gostam de lembrar como a louca…

A ditadura salazarista ilustrava os seus livros para alimentar a sua tríade Deus-Pátria-Família. Hoje, alimentamos o ego de uma sociedade dita laica, livre e socialista… Como será amanhã? Será que não chega de adulterar a história conforme a ideologia!

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