A nova cultura que despreza e calca todas as demais, não é cultura, mas ditadura

In: Wikipedia

No outro dia passei pelo Campo Pequeno a fim de encontrar-me com um professor meu amigo, que tem uma visão das coisas e da vida com muito bom senso, livre, independente, que não engole qualquer coisa que as modas impõem aos docentes nos dias de hoje, muito respeitado nos seus meios. Um homem de personalidade. E por isso eu tanto prezo jantar e conversar com ele. Eu gosto de quem se arrisca a pensar por si… A opinião dos que vão com a boiada é igual à de todos os outros, quem ouve um, ouve todos. Mas por falar em bois, era uma quinta-feira, dia de festa brava na monumental e histórica Praça de Touros que para ali atrai os olhares admirativos de turistas, residentes e curiosos. Até a comunidade muçulmana confessou que outrora, quando tinha falta de espaços para o culto, sonhava com aquele edifício para transformá-lo em mesquita. Não pareciam importar-se muito com as estocadas que eram dadas aos animais bravos, tal como não parecem importar-se aqueles que frequentam os espetáculos musicais e artísticos que a Praça também oferece, tal como os restaurantes de qualidade que ali servem pantagruélicas e saborosas refeições de suculentas e altamente calóricas carnes vermelhas. A quebrar a monotonia de uma noite agradável, apesar da indiferença de quem ali passava ou jantava, uma dezena de jovens com cartazes, megafones e buzinas tentavam convencer os transeuntes e os adeptos das touradas da crueldade e tortura animal que estaria prestes a começar.

Neste artigo, não está em causa qualquer defesa das touradas ou do bem-estar animal. A minha análise cinge-se a questões de filosofia moral e política, embora não o faça sob as postulações utilitaristas de Peter Singer, e outras análogas, que defendem o veganismo radical, e que apontam para a discriminação animal, como a última a superar, depois de ultrapassados os preconceitos entre os homens. Permaneço no centro da virtude que não adere a eco terrorismos ou a conservadorismos bacocos. O que eu vi ali? À entrada da Praça, centenas de pessoas de todas as idades, dos mais novos aos mais idosos, a maior parte de camisa e calças de sarja, senhoras graciosas e de vestidos elegantes, que esperavam pacientemente, a maior parte deles sentados, que a arena abrisse as suas portas. Do outro, uma ou duas dezenas de jovens, talvez alguns universitários, outros hippies, com t-shirts pretas ou alusivas ao sangue derramado pela bicharada, com cartazes, buzinas e bandeiras, impacientes e nervosos. Em torno da Praça, uma banda de jovens músicos desfilava tocando pasos doble, com disciplina e boa disposição. Os outros, faziam barulho com cláxones, gritos, megafones, destilando ódio acerca do que ali se passava. Junto à Praça, funcionários recolhiam os bilhetes das pessoas que, dispostas em filas e de máscara, respeitavam o distanciamento social, enquanto junto ao aglomerado de manifestantes, numerosos polícias impediam excessos e truculências daquela molhada sem respeito pelas regras mais básicas da DGS em meio a esta pandemia. A análise crua e dura está feita, e cada um tire as suas elações. Condeno, entretanto, alguns dos slogans dos manifestantes, que diziam para lixar-se a tradição, e serem doentios aqueles que entravam na Praça. Quanto aos uivos e onomatopeias, não comento, pois eram desprovidos de razão, e precisaria grunhir para responder “à letra”.

Uma ideologia recente, com ares de superioridade, disfarçada de nova cultura que despreza e calca todas as demais, não é cultura, mas ditadura. Ditadura do pensamento, que não respeita aquilo que a antecede, nem percebe que é volátil, porque da moda, e as modas passam… O pensamento totalitarista que quer absorver tudo aquilo que o rodeia é um fenómeno não novo, encostado a partidos extremistas e perigosos às democracias, como aqueles que inspiram muitos dos jovens que ali se manifestavam. Ao vociferar que aqueles que naquela praça entravam eram doentes mentais, não respeitavam os seus próprios pais, muitos deles adeptos, ou pelo menos neutros, provenientes dos tempos em que ninguém via nenhum mal naquilo. De repente, os sãos tornam-se doidos quando ali, eles eram os únicos que gritavam como loucos… Percebia-se em tudo aquilo certa arrogância característica dos meninos mimados da cidade, que olham com desdém e ares de superioridade para todos aqueles que são do interior, tal como as suas procissões e tradições. Habitualmente, são amantes de fofuras peludas aprisionadas em minúsculos apartamentos. O sofrimento respiratório e esquelético dos pugs, que estão na moda tal como essas ideologias, é um bom exemplo daqueles que condenam as touradas, e têm um animal em casa que levará anos de sofrimento em dificuldades de locomoção e respiração, fruto de perversos condicionamentos genéticos, para parecerem bichos fofos. Essa gente que quer ditar as regras de como os outros devem viver, não sabem o que é criar um animal do campo, dificilmente distinguem uma ovelha de um cabrito, nem o touro bravo de uma vaca… E pensam que ter um cão ou gato de apartamento lhes dá autoridade moral para condenar aqueles que criam os animais soltos, no campo, e que deles dependem para a sua subsistência e sobrevivência. A verdadeira ecologia não é destilada pelos ideólogos da cidade, mas vivida dia-a-dia no campo. Não é dos que consomem soja transgénica de plantações abusivas para o ecossistema, mas dos que consomem a galinha e o porquinho (produtos biológicos) que com muito amor criaram e alimentaram. As aglomerações e a poluição (inclusive a ideológica) das grandes cidades, e a fuga do interior, é que são um dos maiores atentados ecológicos dos nossos dias…

Tal como atenta à liberdade de pensamento, a ditadura do pensamento único.

Dr. Manuel Victorino

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