Os totalitarismos e as novas religiões políticas

Os totalitarismos, como o próprio nome indica, querem ocupar todos os espaços, preencher a totalidade do poder, da economia, e até mesmo as mentes com a sua ideologia. Ora, não admira que queiram preencher também aqueles espaços religiosos, tornando-se eles mesmos uma religião política, à sua maneira, ateia. Isto acontece, segundo Raymond Aron, quando a política quer constituir um todo da existência humana, absolutizando-se, desejando edificar um reino perfeito, sem Deus nem religião, tornando-se assim uma espécie de religião política, ou secular.[1] Já Ratzinger dizia que onde a política quer tornar-se uma espécie de salvação, ela promete mais do que lhe compete, tornando-se demoníaca.[2] Não admira que para atingir esse reino das utopias, e viver essa soteriologia que almeja mais do que lhe compete, seja necessário suprimir a religião, sobretudo a Católica, com a sua tradicional separação de poderes decretada por Jesus (Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus), e a permanente recusa a adorar um líder, pois há um só Senhor a quem se deve adorar. Essa histórica tendência anti idolátrica perante os Césares e os Imperadores já havia causado as grandes perseguições do início do Cristianismo, e permanece ainda hoje perante uma Igreja que não se omite, dentro do seu carácter profético, de dizer as verdades e desmistificar as lideranças. Os líderes totalitários e carismáticos só poderiam ver isso com maus olhos, e tentam, consequentemente, manipular os membros do clero colocando-os ao seu serviço, religiosamente obedientes – como na Revolução Francesa, que visou um clero devotado aos novos ideais da deusa razão e aos princípios revolucionários, senão, a guilhotina acabava com qualquer oposição. Mortandade semelhante deu-se nas revoluções Republicanas, no México, durante a guerra civil espanhola, durante os regimes nazis e comunistas… o século XX voltou a ser século de mártires, que recusaram obediência religiosa e adoração aos líderes temporais, e que não deixaram a Igreja submeter-se a lógicas despóticas e escravizantes.

Se a religião constituía para Marx, ele mesmo inspirador de tantos totalitarismos, o ópio para o Povo, seria preciso inebriá-lo de materialismo, reeducá-lo no ateísmo, devotá-lo pelo líder supremo, dogmatizá-lo nas suas doutrinas. Surgem então os “livros sagrados”, estudados, lidos e relidos como uma Bíblia, ideologias políticas são dogmatizadas, verdades supremas que não podem ser contrariadas, e todos os oponentes são perseguidos e hostilizados. Constitui-se uma espécie de inquisição, observante a todos os que pensam de modo diferente, que controlam as redes sociais e os comentários nos jornais, as críticas e as opiniões, os espetáculos e as televisões. Sim! Porque os totalitarismos querem-se no todo, não deixando espaços a uma opinião pública que pense por si, de modo diferente. É-se guiado cegamento por um líder supremo, carismático, irascível, lascivo, por todos respeitado e adorado, que deve ter capacidade de doutrinação, e realizar discursos que podem durar horas, onde todos se levantam e aplaudem. Nações inteiras choram baba e ranho quando falecem. É como se fosse um guru, com uma espiritualidade própria, panteísta, esotérica, naturalista. Claro que não faltam nessas religiões seculares ou políticas os seus santos e os seus mártires. Aqueles que morrem para manter a integridade da doutrina e os seus radicais seguidores. A história é então reescrita de modo a estigmatizar tudo aquilo que fira a doutrina e o pensamento único, e a canonizar os seus líderes e ideólogos.

A semelhança dos totalitarismos, das religiões políticas, com as confissões religiosas, é evidente. Caricaturas grotescas. Ambas têm livros sagrados, líderes carismáticos, evangelizam a seu modo, formam prosélitos, produzem os seus santos e mártires, observam a pureza da sua doutrina, inculturam-se, dogmatizam-se, mantêm uma “moral”, cantam, rezam e proclamam repetidamente as suas fórmulas e slogans, penetram nas artes e na cultura, usam os pobres e sofredores como público alvo, razão e prática das suas doutrinas. Apenas uma diferença, talvez a mais subtil e a mais perigosa. Enquanto a religião proclama o amor e a união, as políticas destilavam ódio e criavam a divisão. Mas algo mudou nos últimos tempos. Essas políticas estão mais soft, pacifistas, ecológicas, escondem-se por detrás da solidariedade, viram nas minorias os novos pobres e sofredores, disfarçam-se para não assustar as sociedades democráticas livres. Aprenderam, sobretudo, que aquilo que obtinham pela força e a conquista, com golpes e revoluções, podem fazê-lo agora com paciência e perseverança. Como um gás invisível que inunda os pulmões e atinge o cérebro, certas ideologias vão dissimulada e progressivamente penetrando as mentes. Estão a “converter” povos e nações ocidentais rumo às suas utopias. Ainda estão espalhados pelo mundo líderes à antiga, revoluções realizadas no seu modo mais tradicional, mas os novos líderes totalitários, ao mesmo tempo que se distinguem desse modus operandi e até mesmo desses regimes, trazem no seu bojo as mesmas políticas e as mesmas ideologias. Condicionam as mentes como o faria qualquer seita, com lavagens cerebrais, constantes, repetidas, condicionadoras… Um invólucro suave para um conteúdo venenoso.

Dr. Manuel Victorino


[1] “L’ordre politique, avec ses nécessités et ses valeurs, ne constitue pas le tout de l’existence humaine” (ARON, Raymond. A propos de la théorie politique. In : Revue française de science politique, Vol. 12, n. 1, 1962. p. 26). A expressão e definição de uma religião política ou secular em ARON, Raymond. L’âge des empires et l’avenir de la France. Paris : Défense de la France, 1946.

[2] RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância. Lisboa: Edições Universidade Católica Portuguesa, 2007.

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