Por uma educação verdadeiramente livre e plural

Havia duas matérias que a minha professora de Francês dava com especial calor e paixão, durante o último ano do ensino secundário: A Revolução Francesa e o Maio de 68. Eram lecionadas como maravilhas da humanidade, avanços sociais que deixavam para trás uma civilização engessada na moral cristã e sob influência da infame, tal como Voltaire apelidava a Igreja Católica. Eu não só gostava de ler, como tinha alguns amigos filósofos e historiadores. E aquilo que ouvia e lia acerca das duas grandes revoluções que pautaram a civilização europeia, nem sempre era composto de flores e frutos. Antes, encontrava demasiados cardos e espinhos, não só na violência empregue como forma de transformação social e edificação de utopias, mas também em muitas doutrinas destiladas pelos seus ideólogos. Recordo-me que, com a ajuda de um amigo especialista nessas matérias, e que tinha vivido largos anos no Québec e em Paris, fluente no francês, ter elaborado um daqueles trabalhos obrigatórios sobre as maiores revoluções na França do século XVIII e XX. Recolhi alguns dos autores que tratavam a cru a violência perpetrada nessas sublevações e as fragilidades que elas continham. Uma visão diferente daquela que tinha sido dada pela professora. A dissertação mostrava que não bastavam as intenções terem sido as melhores – mesmo essas seriam discutíveis –, os meios empregues acabaram por ser demasiado perversos. Tinha grande esperança nesses trabalhos, até porque as minhas notas eram sempre bastante satisfatórias. Para mais, lidos e corrigidos pelo meu amigo francófono. Ora, qual não foi a minha surpresa ao ver que a professora havia rasurado a vermelho a maior parte das constatações e até mesmo as citações. O francês estava impecável. O problema era outro: a professora atribuía uma nota baixa e corrigia o conteúdo, não a escrita, dizendo rancorosamente em plena sala de aula que a nota baixa tinha sido atribuída pois o trabalho parecia ter sido feito “por um daqueles padres de aldeia”. A professora de francês julgou e condenou a minha opinião, não a minha habilidade na língua. Primeiro erro da educação moderna.

Mais tarde, ao estudar filosofia e a história medieval, qual não foi o meu espanto ao ler as grandes disputatios nas Universidades, nas Escolas-Catedral e nas Praças Públicas. Aquele tempo que acusam de pensamento unilateral, fruto da tirania da Igreja, e da malfadada inquisição, foi o tempo das grandes discussões, dos debates públicos, do ensino realizado com base nas disputas filosóficas, na troca de ideias, nas distintas posições, nesse pedagógico resumo de tese+antítese=síntese. Estudei em 4 Universidades. Hoje, não é assim. Cada professor destila a sua verdade absoluta, e enrubesce se contrariado.  Tive saudades desse tempo que não vivi. Em que o ensino não era o bolo alimentar ideológico digerido sem mastigar. Como desejei um regresso ao convívio dos grandes filósofos gregos, à escola filosófica de Agostinho em Cassicíaco (Brianza) onde até a mãe, Mónica, podia livremente opinar, e o seu bom senso era tido em conta. As grandes disputas de Tomás de Aquino, Boaventura, entre tantos outros mestres e doutores de Paris, mas também de Salamanca ou Coimbra (Universidades criadas pela Igreja Católica, o que é um non sense quando a acusam de manter os povos na ignorância). Em que cada um tinha o direito de expressar livremente as suas ideias, sem ser julgado pela tirania de um pensamento único, imposto, politicamente correto. E defendê-las publicamente, diante da comunidade docente e discente, que podia intervir, opinar, e livremente escolher uma ou outra posição, ou optar por uma terceira via. E este é mais um erro do ensino moderno, impõe um pensamento único e não admite a livre troca de ideias ou o direito à diferença, atropelando os alunos com velhos e ensebados resquícios de um Republicanismo confessional do ateísmo, anticlerical e positivista.

Hoje, há temas salutares que são quase proibidos, como a Religião, e temas proibidos que são ministrados como verdades absolutas, que não são científicas ou biológicas, mas ideológicas, como a Ideologia de Género. Em nome da tal tolerância, não se toleram diferentes opiniões, num tema que é altamente discutível. E mantêm-se os alunos na quase total ignorância em matéria de cristianismo, raiz do pensamento e da cultura ocidental, resposta filosófica a tantos questionamentos, filosofia prática, proposta de sentido para a nossa vida. Que desilusão, como pensava Kierkegaard, o homem chegar aos mais variados conhecimentos científicos sem conseguir, entretanto, compreender-se a si mesmo. John Rawls, apesar de ter sido sempre avesso a metafísicas, baseando-se nos escritos de Locke, criticava um ensino que se omite em matérias religiosas, considerando perigosa a sua parcial ou total ignorância. A negligência relativa às diferentes confissões religiosas, ou a constante ojeriza dirigida a elas, tem sido uma das principais causas da presente cristianofobia ocidental, e do bullying sofrido por alunos das mais variadas crenças e práticas religiosas. Hoje, um homossexual é respeitado por todos, podendo praticar a sua opção sexual livremente. Um religioso é ostracizado pelas suas opiniões e pela sua prática. Não desejamos a descriminação do primeiro, exigimos, isso sim, o respeito pelo segundo. Se cair um preservativo do bolso de uma criança, ela é fixe. Se cair um terço, é ridicularizada e enxovalhada. Conheci casos assim. A simples nomeação de uma Católica para o Supremo Tribunal dos USA foi causa de controvérsia e crítica da maior parte da Imprensa, ao mesmo tempo que se exaltava o feminismo e as posições abortistas da sua antecessora. Neutralidade dos Média, 0 (Zero!), e não admira, fruto da educação tendenciosa que receberam, tornando-os incapazes de informar imparcialmente. Isso vive-se nas escolas e nas Universidades de hoje, e vai formando um ar irrespirável, intoxicado de marxismo cultural e da ditadura de pensamento, único, inquisitório a tudo o mais. E esse, é um dos piores erros do ensino hoje…

Lembro-me de ter promovido vários debates entre os meus alunos do básico e do secundário, mas também no Ensino Superior. Eram as aulas mais animadas. Conhecíamos melhor cada um deles, aprendíamos muito com as suas entusiasmadas discussões, víamos desabrochar os mais tímidos, e cuidado com os pacatos, surpreendiam sempre! Geralmente, temas neutros. Por exemplo, a televisão, prós e contras, e depois de escrever no quadro o quanto ela tem de positivo e de negativo, chegávamos à conclusão: trata-se de um instrumento neutro – depende do bom ou mau uso que fazemos dela. Algo simples, e ao mesmo tempo profundo. O uso das criaturas, um tema tão caro à Escolástica, ao mesmo tempo Inaciano, a importância do discernimento. Hoje, poderiam ser os telemóveis, ou as redes sociais, com aquilo que têm de positivo ou alienante. Entrávamos, por vezes, em temas um pouco mais fraturantes. Através da troca de ideias e da diferença, procurávamos alcançar a verdade, que não se encontra somente no diálogo, como pretende Habermas, mas naquela verdade que não é subjetiva, mas subsistente, anterior a nós, e que pode ser alcançada em salutares tertúlias.[1] E o objetivo do professor não é outro senão proporcionar aos alunos um encontro com a verdade, à semelhança da maiêutica: o professor, como experiente parteira, incentiva e tira do potencial de cada um aquilo que têm de melhor, herança para a sociedade e para o mundo futuro. E essa é uma esperança. Que dos erros nasça uma educação verdadeiramente livre e plural. Sem imposição de ideologias, que impedem o homem de ser livre e correr o risco de pensar por si.

Dr. Manuel Victorino


[1] Aliás, esta foi uma das conclusões do salutar diálogo entre Habermas e Ratzinger, publicado em: HABERMAS, Jürgen y RATZINGER, Joseph. Los fundamentos prepolíticos del Estado Democrático. Madrid: Letras Livres, 2005. Versão inglesa: Idem. Dialectics of secularization: on reason and religion. San Francisco: Ignatius Press, 2006. 92p.

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