O poder totalitário segundo Rocco D’Ambrosio

Doutor em ciências sociais e professor catedrático de Filosofia Política na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Gregoriana em Roma, além de professor de Ética da Administração Pública no Departamento para as políticas do pessoal da administração do Ministério do Interior Italiano, Rocco D’Ambrosio publicou pela seletiva e prestigiosa Biblioteca de Autores Cristianos (BAC) um interessante Ensayo de ética política[1] no qual aborda o “poder totalitário”[2] um assunto tão atual como pertinente. Proponho aqui uma síntese a título de convite para uma leitura mais profunda e vasta do tema, tal como do insigne autor.

“Ciência exata orientada ao extermínio” … é a partir de uma poesia de Quasimodo, relativa à experiência dos totalitarismos na história, que Rocco  D’Ambrosio procura sintetizar os fundamentos causadores desta verdadeira tragédia política e social: A insatisfação, enquanto despoletar de ideologias perigosas que se aproveitam da revolta e frustração popular relativamente à estrutura responsável pelo desagrado, e que surgem com a proposta de um mundo novo e um projeto salvador. Este desejo de renovação inerente à ação dos homens e a procura de soluções baseadas no “dever gnóstico” de pensar a mudança, leva ao surgimento de doutrinas, partidos e líderes aproveitadores e manipuladores. De modo muito oportuno, o autor discerne ainda todo um “background cultural” para o surgimento dos totalitarismos, entre eles:

1. A Nova Era, uma mistura perigosa, esotérica e sectária, que procura um reino onde tudo, política, religião, sociedade… é absorvido e transformado pela ideologia.[3] A New Age influencia um grande número de intelectuais ocidentais e até mesmo partidos políticos, ONGs e movimentos ecológicos que deificam Gaia, a “deusa terra”, um despertar da consciência proveniente das profundezas do planeta. É a velha tendência, desta vez com laivos religiosos, místicos e panteístas, da terceira via ou do terceiro reino tal como a lei das três fases (teológica, metafísica e científica) de Turgot e Comte ou os três Estados de Marx e Engels, o III Reich… Terceira via despoletada, conforme os seus ideólogos, pelo despertar das consciências: no caso do comunismo o despertar do povo oprimido, no caso da Nova Era, o despertar de Gaia.

2. O líder ou o chefe que encontrávamos já no príncipe de Maquiavel, em Goethe, em Nietzsche (e consequentemente no Nazismo) ou em Marx, em que o homem, ou melhor, o super-homem surge como libertador, salvador, poderoso, profeta, precursor, idealizador, intelectual…

3. O livro sagrado, que depois da Bíblia, ou de obras de outros credos e dogmas religiosos, caracteriza-se nos nossos tempos pelo conjunto de escritos ideológicos de contornos totalitários lidos, propagados, estudados, repetidos e acreditados ao mesmo tempo que são proibidas e combatidas todas as doutrinas contrárias.

4. A causa, isto é, a procura do ideólogo e do seguidor para que triunfe a ideologia “como missão a que há de consagrar-se com todo o seu ser”.[4]

Rocco  D’Ambrosio reconhece a grande dificuldade em dialogar com estes regimes e ideologias intolerantes a qualquer posição contrária, e propõe “um discernimento pessoal e comunitário” tal como o conhecimento da história de semelhantes regimes e de vidas que a eles se opuseram (como as de Edith Stein, Bonhoeffer, Óscar Romero…) ou a leitura de obras sobre o totalitarismo, tendo Hannah Arendt como ponto de referência. Para o filósofo político, não podemos deixar-nos estupidificar e manipular por estas ideologias. Os campos de concentração, os cárceres e o desrespeito pela dignidade e liberdade humanas devem servir de exemplo capaz de alertar e levar a discernir novas velhas formas de autoritarismo e totalitarismo capazes de assombrar a vida política democrática pós-moderna. A responsabilidade ética é, para Rocco, enorme, não só para as pessoas, mas para as instituições, que devem reagir, atuar e educar a fim de não sucumbirmos ao mal invasor.

Dr. Manuel Victorino


[1] D’AMBROSIO, Rocco. Ensayo de ética política. Madrid: BAC, 2005. 104p.

[2] Capítulo 8.

[3] Proponho aqui uma leitura de LACROIX, Michel. A Ideologia do New Age. Lisboa: Piaget, 1995. 125p.

[4] D’AMBROSIO. Op cit. p.28.

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