Gramsci e os idiotas úteis

Foto in: pt.wikipedia.org

Surpreendeu-me a recente entrevista de um eminente socialista a expressar a sua admiração por Gramsci, inclusive com citações do personagem, bonitas por sinal, como poderão ser quaisquer frases retiradas e isoladas do seu horroroso contexto. Depois de um tempo estupefato, pensei com os meus botões: Para quê a surpresa?!! Não sabes tu que o socialismo estudou aos pés de Gramsci e vai beber da sua doutrina uma práxis há muito presente entre nós? A surpresa seria reconhecerem-no publicamente, admirarem-no é normal, citarem-no dá um arzinho da sua graça ao pronunciar um estranho nome de um estranho à maior parte do público, personagem obscuro e perigoso que convém conhecer… Não foi por acaso que Michel Foucault escreveu que Gramsci era um autor mais citado do que conhecido[1]. Conheçamos, pois, o homem que deu um dos maiores contributos para aquilo que Hannah Arendt discernia tornar-se uma silenciosa conspiração com instrumentos totalitários

Gramsci foi um antifascista preso pelo regime de Mussolini, argumento desprovido de outros valores para logo ser lembrado como lutador pela liberdade e a democracia por todos aqueles que adoram desdourar os verdadeiros heróis da História para introduzir nesse vazio os seus ideólogos e mártires. Um antifascista soa-me bem, Gramsci não, pois não foi um mero prisioneiro nas grades do fascismo, esteve acorrentado igualmente à ideologia do mais radical comunismo firmado e refinado por Benedetto Croce. Inimigo, pois, da liberdade e da democracia como é apanágio de qualquer totalitarismo. Na prisão, que pelos vistos não seria tão draconiana assim, ele teve tempo e material para escrever vários cadernos, blocos de notas e cartas, reunidas e publicadas mais tarde, traduzidas em várias línguas, lidas e estudadas em todo o mundo como fazem notar os seus mais variados prefácios. Gramsci pensaria um modo de subverter a sociedade de modo incruento, isto é, sem derramamento de sangue, abandonando a narrativa da revolução violenta e armada por uma forma mais perniciosa de criar novos prosélitos e penetrar em toda a sociedade. Baseando-se no pensamento de Croce, pois Gramsci não é assim tão original, teve o mérito de delinear meios para tornar aquela doutrina praxis. Era preciso a filosofia materialista marxista inspirar a arte e a cultura, penetrar em todos os domínios, eliminando toda e qualquer transcendência, capaz de inverter valores, subverter a sociologia e abrir caminho à utopia de uma sociedade igualitária, ateia, amoral.[2]

Na educação, Gramsci pretendeu um inteligente retorno ao método antigo, aristotélico e platónico, no sentido de uma educação emocional, não a mera e fria intelectualidade, de modo a rechear esses sentimentos com a paixão da luta de classes e as ambições utópicas marxistas, e contar entre as fileiras com mais intelectuais do que guerrilheiros ou terroristas. Essa transformação era fundamental para um violento e tão esgotado totalitarismo leninista. Para Gramsci, só uma tal elite intelectualizada poderia ser capaz de transformar as sociedades e formar/moldar as massas.[3] Depois, ele conta com “idiotas úteis”, expressão que não é nova nele, mas estava já presente no discurso de Lenin, consistindo eles em presas humanas facilmente manipuláveis no enredo da trama cultural e educativa marxista. Os guerrilheiros tornam-se políticos, universitários em contestatários, todo proletariado e o povo revoltado reconfigurado nos tais “utili idioti”, permitindo a revolução através de uma nova classe de políticos, educadores, artistas e intelectuais que subvertessem a ordem social vigente. Tornava-se assim necessário acabar com a aristocracia e as velhas classes dominantes, através de uma horizontalização hierárquica gerada por um programa igualitário, manipulado em nome de uma pretensa justiça social e distributiva, que visava criar uma tributação excessiva para o investimento privado, ricos e poderosos, a fim de eliminar as diferenças, controlar as classes dominantes e amealhar fundos que financiaram a Revolução.

Gramsci considera fundamental, para levar adiante o plano de avermelhar as nações, um desgaste dos poderes e instituições existentes, sobretudo a Igreja. Assim, pretendia ele que o socialismo deveria matar o cristianismo. Sem uma perseguição direta, violenta, que assustaria e levaria a mártires inevitáveis, força e apanágio dessas instituições, sobretudo as religiosas. Gramsci pretendia antes sufocá-las, numa espécie de morte lenta e perversa, afogadas numa cultura e numa ética em quase tudo contrárias ao catolicismo. Apenas um pormenor que escapa a muitos, e que Giuseppe Niccolai recorda, num artigo, 40 anos após a morte de Gramsci. Dois anos após a sua libertação da prisão fascista, Gramsci libertar-se-ia daquela outra “fermosa e misérrima prisão” na expressão camoniana, porém, uma libertação plena. À semelhança de um Paulo, que perseguia o cristianismo e tombou, mais do que de um cavalo, do seu zelo obstinado e persecutório aos discípulos de Cristo, também Gramsci, que visava sufocar a religião, acabou ele mesmo seduzido por ela, convertendo-se antes de morrer, arrependido.[4] Se pudesse, certamente teria queimado os seus escritos, entretanto elevados a propaganda, livros de estudo e folhetagem marxista-leninista. Gramsci libertou-se, no fim da vida, de extremismos políticos, embora, infelizmente, os extremismos nunca se libertaram dele.

Dr. Manuel Victorino


[1] “C’est un auteur plus souvent cité que réellement connu” (Lettre privé, 20 abr. 1984).

[2] Cf. REALE Giovanni. ANTISERI, Dario. História da Filosofia: De Nietzsche à Escola de Frankfurt. Vol. 6. São Paulo: Paulus, 2006.

[3] Cf. GRAMSCI and Education. Ed. BORG, Carmel et all.  Oxford: Rowman &Littlefield, 2002. p.

[4]NICCOLAI, Giuseppe. Secolo d’Italia, 1 mai. 1977. Disponível em: http://www.beppeniccolai.org/Secolo_770501.htm

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